2012, maio

Amigos,

Eu sempre tive medo desse dia. Temo que as horas se arrastem dolorosamente enquanto procuro espaço para respirar em meio ao bombardeio de símbolos e lembranças. E são nesses dias estranhos em que somos compelidos por uma necessidade estranha esbarrando na minha já notável timidez: “Vai lá! Diga o que sente. Abrace. Talvez seja a última chance!”.

Bobagem… não é a última chance.

Hoje, encerro um período de trabalho na Ancine, servindo na Planejada desde 2008.

Foram bons anos… foram ótimos anos! Aqui fiz amigos, conheci pessoas incríveis e guardarei momentos que não vou esquecer jamais. Trabalhei com colegas extremamente dedicados, criativos, e sobretudo muito corretos no trato das funções que aqui exercemos. Aqui encontrei a melhor equipe para trabalhar, e vou guardar com muito carinho todos os esforços e todas as vitórias que conseguimos. As derrotas também, mas essas deixarei no exercício de suas funções adequadas: refletir para melhorar, sempre.

Antecipo. Ao final, eu decidi encerrar dizendo assim: “Foi um prazer servir ao lado de vocês!” Digo isso porque tenho certeza que vocês conhecem o melhor sentido da palavra “servir”, e sobretudo, sabem exercer com muito respeito e solidariedade aos colegas.

Desde a decisão tomada, principalmente nas últimas duas semanas, todos os momentos bacanas me atingiram como raios enquanto eu tentava me concentrar pela última vez nas planilhas, dados e relatórios da Cota de Tela nossa de todo dia… Tudo é muito nítido e ao mesmo tempo, hoje, parece ter sido tudo muito rápido.

O telefonema do Cespe quando a última esperança já tinha se dissipado, a atribulada saída da empresa em que eu trabalhava em Belo Horizonte, a mudança repentina, o curso de formação, o quarto sem janelas na praça Tiradentes, o calor no dia da posse, aquela avenida Brasil às 14:00 num Gol cinza sem ar-condicionado, o Raio-X de tórax que não cabia na mala. Os novos planos, a aposta na vida no Rio de Janeiro, a luta para conseguir um apartamento.

Ao mesmo tempo, ser lotado na SFI foi incrível. Lembro de chegar aqui, com meu surrado e renegado diploma e ser perguntado entre sorrisos pelo chefe: “Engenharia? O que você veio fazer aqui?”.

Descobrir o que fazer aqui foi fácil. Difícil foi, agora, descobrir uma forma de voltar pra Uberaba e levar todos vocês comigo. Mas penso ter encontrado uma maneira. Não se enganem: vou levá-los todos no meu coração, para todos os lugares. Pra roça, pra fronteira, pro cerrado, pra beira do rio, pros jogos no Uberabão. Quer queiram, quer não.

Vou levar os atendimentos difíceis, nossas tentativas de melhoria, nossas reuniões, nossas reorganizações, nossas iniciativas. Vou levar aqueles momentos em que nos divertíamos em meio ao processo e ao procedimento. Vou levar aquele parabéns que vocês puxaram no salão no meu aniversário. Vou levar os aniversários de vocês. Vou levar as despedidas dos amigos que nos deixaram. Vou levar todas vezes em que nos permitimos ser amigos fora daqui e as vezes em que pude ajúda-los quando alguns me confiaram suas dificuldades.

A Libertadores que vimos o Cruzeiro perder em minha casa comendo tropeiro… Lembro bem de, naquela ocasião do aniversário, ter dito em voz alta no meio do salão que meu coração só tinha três coisas: a Dedéia, o Cruzeiro e a Fiscalização. Engraçado. A vida dá suas voltas e promove seus atropelos… Os anos se passaram, eu e Dedéia decidimos trilhar caminhos diferentes, o Cruzeiro perdeu muito em técnica e graça… mas está aqui a Fiscalização. Estão aqui essa baia, essa porta que abre e fecha, essas pessoas tão queridas que ficam passando ao meu lado e que, não raro, me presenteiam com um sorriso. Esse telefone, esse Exodus piscando, essas fórmulas de Excel, esse SIF (ou o ainda árduo SAD), esse SIA, esse Outlook… Cara, como vai ser viver sem essas coisas daqui pra frente?

Não sei… eu só sei que é hora de voltar pra casa. De repente, você tenta de todas as formas juntar os cacos de algo que se partiu, mas não se sabe como nem o quê. De repente, você insiste em negar a ausência de um objeto perdido. E sabe quando você começa a agir pelas vias tortas em função da negação? Sabe quando você se pega tentando desesperadamente remendar o objeto partido, mas cria algo tão disforme e que não se parece nem um pouco com aquilo que já fora belo outrora? Pois é… É nessa hora que a vida nos dá amostras de que é preciso um bocado de coragem para mudar.

Desde agosto de 2011 alguns problemas pessoais passaram a afetar meu trabalho, e quinze anos depois de sair de minha cidade, hoje sinto muita falta de minha família e de minha terra. Então decidi ficar apenas com a lembrança da beleza do objeto perdido. Agradeço a todos que tentaram se aproximar de mim nesse período para tentar ajudar, e peço desculpas pelos momentos em que minhas vias tortas sabotaram suas sinceras tentativas.

Não deixo conselhos, não sou digno de tal. Em mais de quatro anos de Ancine me apaixonei pela função pública e nela pretendo continuar. Existe algo de muito bacana nisso que fazemos, mas algumas vezes, algo se perde. A rotina, o processo, o procedimento, a forma… Subtrair o desejo, a vontade e o ânimo pessoal do agente em nome da supremacia do interesse público é necessário. Para proteger a coisa pública dos interesses particulares – e a democracia em si – estaremos sempre diante de um regime que prima pelas relações impessoais, pela formalidade e pela rigidez das comunicações. Concordo, tudo bem, assim deve ser. Mas isso não significa a completa inexistência de espaço para estabelecer elos de cumplicidade e afeto capazes de nos fazer respirar no meio da rotina e da forma.

Sabem de uma coisa que vou carregar com tristeza? Não ter conseguido extrair de vocês todos os sorrisos que tentei. Hora por culpa minha, hora por culpa das circunstâncias. Pois façam o que fui incapaz de fazer e tentem uns com os outros. Até um simples atendimento ao cidadão pode ser capaz de nos fazer conectar à nossa finalidade e nos fazer sentir sujeito novamente, e não uma mera engrenagem na morosa máquina pública.

O burocrata radical insistirá que no trabalho não fazemos amigos, apenas colegas de trabalho. Pois bem… podemos ser amigos agora. Aí em cima está meu e-mail pessoal. Vou ficar feliz com contatos, notícias, correntes, spam, qualquer coisa. Levo todos comigo, mas nos reencontraremos em breve.

(Burocratas… Burocrata é o caralho. Nós somos servidores.)

É o relatório. E assim fica dito o prometido: “Foi um prazer servir ao lado de vocês!” … mas não sei… tem que usar a palavra certa… ainda falta dizer algo…

_ Amo vocês.

Não falta mais.

Luís

1979, setembro

Um bebê chora no colo de uma menina de 12 anos.

Ela sacode, balança, usa a chupeta, brinca, tenta descobrir o que fazer.

O bebê não pára de chorar.

O bebê não pára de chorar.

1997, julho.

Nós passamos pelo porteiro.
( eu passava horas na portaria com o violão do meu pai. )
Naquele dia, eu carregava a mala, meu pai o violão.
“Tchau” digo para o porteiro. “estou indo embora”.
“Ele está seguindo seu destino”, papai emenda…
O porteiro sorri e aperta o interruptor.
A porta se abre num estrondo.
Uberaba tinha ficado para trás, e eu não sabia o que vinha pela frente.
Até hoje procuro saber.

PS.: Mentira. Eu sabia o que estava seguindo: eu seguia meu pai.

1985, talvez.

Casa da vovó.
Nós estamos brincando com as cortinas brancas da sala. Nos enrolamos nelas.
Ela dizia que estava se vestindo de noiva e que estava brincando de casamento.
Papai grita que derrubaríamos as cortinas se continuássemos.
Nós as derrubamos.
Eu apanhei, ela não.
Quando parei de chorar, ela não queria mais brincar.

Bizu

Como resolver questões do Cespe?
Leia uma vez.
Um erro saltou aos olhos? Sublinhe-o e siga.
Leia a próxima.
Não há erro? Leia de novo.
Continua sem erro? Leia de novo.
Ainda não viu o erro?
Escreva: “Possivelmente esta questão pode estar correta…”
Depois você decide se vai se jogar ou não.

Dizem que é como começar um relacionamento novo.

3 notas

Você se ocupa de forças complexas, jogos políticos, conflito de interesses, vínculos jurídicos precários.
Acha que compor um fino tecido é uma tarefa para poucos. Esses poucos que atropelam notas, aceleram melodias e buscam o aplauso conversando consigo mesmo.
Virtuoses da técnica e da palavra, engolem sem comer.
Para. Olha em volta. Diz pra ela!
São apenas 3 notas.
São apenas 3 palavras.


 

O trato

Não tinha um Fato.

Tinha o cargo, tinha o tato, tinha um maço de cigarros pela metade.

Mas não tinha um Fato.

Tinha a capa, tinha o processo, tinha tinta. Tinha a Verdade Material do que lhe intrigasse, as linhas sempre retas, justificadas… e sabia dizer Não.

Aliás, sua missão era dizer Não.

Tinha o dom das esquivas, das respostas evasivas, de entrar no Outro por onde se apresentasse uma ausência. Por fim, entregava o que nada tinha e deixava ali marcado seu encanto.

Mas não tinha um Fato.

Não tinha o lhe causasse, o que lhe ensurdecesse. Se o abordassem pelos cantos do ouvido, só ouviria um canto.

O canto…

Desconfortável, seco, vazio. Espinhoso até. Mas ficava no canto.

Carregava tudo lá para dentro. Mártir de si próprio, resignava-se, excluía-se.

Derrotava-se.

Circulava com uma pasta surrada, com uma pilha de papéis que de amarelos se faziam esquecidos.

Em branco.

Até o dia em que se deixou fazer prometer e esqueceu de levar a pasta. Deixou que o cobrassem.

E fez um trato: quando insistisse em sangrar, quando toda a técnica, a perícia, a química e a matemática falhassem, não se importaria mais com tal Fato, nem com ato de qualquer espécie.

Repousaria os dedos e martelaria o teclado.

Deixaria acontecer o que acontecesse.

afasta o objeto

era cedo demais pra tirar esse objeto do baú.

O objeto

Hoje olhei objeto que me causa essa dor profunda. 

Não é o objeto em si, eu sei, aprendi. É o que ele carrega. É o espaço que ele ocupa.

É a completa falta de controle, é a completa falta.

É o desejo fora de lugar, fora de contexto.

Sou Eu ali, perdido em qualquer lugar, pedindo espaço onde menos queria estar no Outro.

Deixa doer, deixa escorrer… mas dessa vez eu já consigo ver. Consigo ver que a dor cega tudo. É esse não-ver momentâneo, que passa.

Agora sóbrio, inteiro em presença, o monstro é cada vez menos frequente.

Em breve, quando ele aparecer de novo, vou conseguir chamá-lo pra dançar.

Imagem

“Falta é desejo.”

A gente aprende com o tempo a dar o nome correto às coisas. Quando a palavra se encontra com o que você sente, o significado é verdadeiro porque ele é seu. E só seu.

Ausência, Falta e Saudade são coisas completamente distintas. Descobri que tenho errado ao colocar qualquer sentimento relativo às três palavras no obscuro balaio chamado “Dor”.

“Falta é desejo”. Sempre a mesma citação… A Falta é fome, é sede, é vontade de lutar. A falta coloca em movimento, faz levantar.

A Saudade passa. E volta quando a porta abre. Saudade passa com um símbolo qualquer, uma lembrança, uma nota. Saudade é carinho puro, é o que de melhor você carrega do outro, não guardando só pra si. Você retribui. Melhor: você distribui.

A Ausência dói, e só faz doer. Não lhe dá alternativa. Ausência é quase morte. Quase. Porque nem mesmo a morte consegue ser pura Ausência.

O bacana é que nem toda Falta e nem toda Saudade são sinônimos de Ausência. Aliás, raras vezes são!

Hoje eu senti saudades. Ponto. E só.

E fiquei feliz por isso. :-)

 

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